Biancabella e a Cobra, de Giovanni Straparola: Parte III

E chegamos (finalmente, né Laís) à última parte do conto do Giovanni Straparola. Demorei tanto tempo porque né, posts sobre castelos me chamam muito a atenção, então eu morri soterrada por eles, como vocês devem ter percebido, se acompanham o blog. Mas falando sério, peço mil desculpas pela demora àqueles que estavam aguardando pelo final.

Enfim, continuem com a história de Biancabella e sua querida irmã Samaritana… (E se tu ainda não leu a parte I ou a parte II, corre lá!)

“A pobre Biancabella ficou, portanto, com aquelas mulheres. Enquanto conversava com elas, ao mesmo tempo em que pensava no seu infortúnio, pediu e uma das moças que tivesse a bondade de penteá-la um pouco. A mãe ficou indignada, pois não queria , de modo algum, que a sua filha trabalhasse como serva. Mas esta, mais complacente, imaginando as broncas do pai e vendo que emanava de Biancabella um não sei quê de nobreza, desatou o avental imaculado que vestia, o estendeu no chão e a penteou qual terna amiga. Mal havia começado, quando das louras tranças jorraram pérolas, rubis, diamantes e outras pedras preciosas. Ao ver isso, a mãe ficou chocada de estupor e também de algum medo, e o ódio que sentia antes de Biancabella se transformou em amor verdadeiro. Quando o bom belho regressou à casa, as mulheres correram todas para abraçá-lo, deletando-se muito com ele pelo feliz acaso que remediava a sua pobreza. Biancabella pediu um balde de água fresca e rogou que lhe lavassem o rosto e os seus cotos de onde, sob os olhos de toda a família, saíram rosas, violetas, flores abundantes, de modo que eles a olharam como se ela fosse um ser sobrenatural.

Certo dia, Biancabella deciciu voltar para onde encontrara o velhinho. Este, a sua esposa, e as suas filhas, considerando os importantes lucros que tirariam da sua presença, a adularam e lhe imploraram que nem mesmo sonhasse em partir, alegando todos os tipos de boas razões para fazer-lhe mudar de opinião. Ela foi inflexível, mas prometeu regressar. Então, sem mais demoras, o belho a levou de novo ao lugar onde a descobrira. Ela lhe pediu que se fosse, e que retornasse à noite, porque voltaria com ele para casa. Uma vez só, a infeliz Biancabella começou a andar na floresta, chamando Samaritana, e os seus gritos e queixas subiam até o céu. Samaritana, todavia, embora estivesse perto dela, e nunca a houvesse abandonado, não lhe quis responder.

“Que vou fazer, agora, nesse mundo?” gritava a pobrezinha, vendo que lançava palavras ao vento, “agora que não tenho nem olhos nem mãos e que estou provada de socorro?”

E, presa de um transporte que lhe subtraía toda esperança de salvação, ela decidiu matar-se. Não tendo nenhum outro meio de acabar consigo mesma, foi em direção a um rio perto dali para nele se lançar. Quando estava na margem, ouviu uma forte voz que dizia:

— Por favor não! Não faça de você a sua própria assassina! Guarde a sua vida para um uso melhor.

Então, Biancabella, pasmada, sentiu os seus cabelos se eriçarem na cabeça. Mas como parecia reconhecer a voz, tomou coragem.

— Quem é você? — interrogou. — Você que vai errando nesses lugares e se manifesta por palavras doces e complacentes?

— Sou — respondeu — a sua irmã Samaritana, que você chama com tanta insistência.

Biancabella gritou, com a voz entrecortada por ardentes soluços.

— Ah, minha irmã, ajude-me, por favor! Se não segui o seu conselho, lhe peço perdão. Cometi um erro, confesso-o, mas foi por ignorância, não por maldade, porque se tivesse sido por maldade, a divina providência não o suportaria por tanto tempo.

Samaritana, tocada pelos seus lamentos e pelo seu triste estado, a reconfortou. Colheu ervas que possuíam uma virtude extraordinária, as aplicou em seus olhos e, dando novamente duas mãos ao seus braços, a curou na hora. Então, Samaritana tirou a sua horrível pele de cobra e apareceu sob os traços de uma linda moça.

Já o sol escondia os seus raios resplandescentes e as trevas começavam a surgir, quando o bom velho chegou, num passo vivo, à floresta e encontrou Biancabella sentada em companhia de outra ninfa. Depois de examinar o seu claro rosto, ficou estupefato. Pensava que não era ela.

— Minha filha — disse-lhe, quando a reconheceu —, essa manhã, estava cega e estropiada. Como se restabeleceu tão prontamente?

— Não tenho mérito algum! — respondeu Biancabella — Foi graças aos talentos da minha irmã que está sentada ao meu lado.

Ambas se levantaram, todas alegres, e retornaram com o belho à casa onde mãe e filhas os acolheram com afeto. Muitos dias depois, Samaritana, Biancabella e o bom velho, bem como sua esposa e as suas três filhas, foram morar em Nápoles. Viram um lugar vazio em frente ao palácio real e lá se sentaram. Quando a noite caiu, Samaritana pegou um ramo de louro e o bateu três vezes no chão, pronunciando algumas palavras. Logo surgiu a mais bela, a mais esplêndida residência jamais vista neste mundo.

No dia seguinte, de manhãzinha, o rei Fernandino foi à janela e ficou chocado de estupor ao ver aquele rico e maravilhoso palácio. Chamou a esposa e a madrasta, que vieram vê-lo. Porém, ficaram muito contrariadas, porque temiam algum acontecimento incômodo. Contemplando cada detalhe da construção, o rei ergueu os olhos e vislumbrou à janela de um quarto duas damas tão lindas, que empalideciam o sol. Assim que as viu, fez-se tempestade no seu coração: parecia-lhe, na verdade, que uma se assemelhava a Biancabella. Interrogou-as para saber quem era e de onde vinham. Responderam-lhe que eram exiladas que haviam deixado a Pérsia com os seus bens para habitar naquela gloriosa cidade. E como ele lhes perguntava se a sua visita e a das mulheres da casa lhes dariam prazer, elas disseram que seria uma grande felicidade para todos, porém que era mais conveniente e civil que as súditas fossem prosternar-se aos pés da sua soberana, em vez do contrário. Fernandino mandou, entretanto, chamar a rainha e as outras damas e, apesar da recusa que elas lhe opuseram a princípio, pois temiam que aquilo causasse a sua perda, ele foi na companhia delas à casa das duas castelãs. Estas as acolheram com muita amabilidade, as receberam com as devidas honras e lhes mostraram os vastos pórticos do palácio, as suas salas espaçosas, os seus cômodos esplendidamente decorados, com paredes de alabrastro e de fino pórfiro, ornados de estátuas que pareciam vivas.

Após a visita, a bela jovem mulher se aproximou do rei e lhe pediu, com humildade, que se dignasse, um dia, jantar na sua casa, bem como a sua esposa. O rei, que não tinha coração de pedra e que era liberal por natureza, aceitou graciosamente, lhe agradeceu, em seguida voltou com a rainha para o seu palácio. No dia do convite, o rei, com a rainha e a madrasta vestidas de acordo com a sua categoria e acompanhadas de várias nobres damas, foram honrar o suntuoso banquete que lhes havia sido preparado. Lavaram as mãos, em seguida o mordomo pediu que os soberanos se sentassem numa mesa perto das outras, porém um pouco mais alta, e o resto dos convivas, cada qual segundo a sua classe. Todos jantaram com alegria. Quando se tirou a mesa, Samaritana se ergueu, dirigindo-se ao rei e à rainha:

— Que alguém —  disse ela —  proponha divertimentos para que não fiquemos desocupados.

Todos aprovaram, mas não houve ninguém que ousasse tomar a palavra. Então, Samaritana retomou:

— Já que ninguém fala, vou, com a permissão de Sua Majestade, mandar vir uma das nossas senhoritas que nos fará passar um momento agradável.

Ordenou à moça chamada Sílvia que pegasse a cítara e cantasse em honra do rei alguma linda canção. Silvia obedeceu, colocou-se diante de Fernandino e, tocando com o plectro as cordas sonoras, cantou, com voz suave e deliciosa, a história de Biancabella, mas sem nomeá-la. Depois do que, Samaritana se ergueu e perguntou que sulplício mereceria quem cometesse tamanho crime. A madrasta, pensando que uma pronta resposta afastaria as desconfianças, disse, com audácia, sem deixar ao rei tempo de responder:

— Uma fornalha bem vermelha não passaria de um medíocre tormento para semelhante culpado.

— É você mesma, — gritou, então Samaritana, com as faces em fogo — a cruel, a criminosa que cometeu esse horror. E acaba, maldita mulher, de pronunciar a sua condenação pela própria boca.

Então, de rosto feliz, dirigiu-se ao rei:

— Veja sua Biancabella! Veja a sua bem-amada! Veja aquela sem que o senhor não podia viver!

Para mostrar que havia dito a verdade, ordenou às três filhas do velhinho que penteassem, na presença do rei, os cabelos louros e encaracolados de Biancabella: deles saía ouro, como sabemos, preciosas e admiráveis jóias e das suas mãos jorravam frescas rosas e outras flores odorantes. Enfim, para melhor convencê-lo, mostrou-lhe no pescoço cintilante da jovem mulher uma corrente de ouro fino que transparecia sob a pele. Quando o rei reconhecei, em virtude desses sinais evidentes, que tinha diante de si Biancabella, começou a chorar de ternura e a beijá-la. Não se retirou antes de mandar acender uma fornalha onde foram lançadas a madrasta e as suas filhas. Elas se arrependeram do pecado, mas tarde demais, e pereceram de modo lamentável. Após isso, as três filhas do bom velho foram casadas com dignidade.

Quanto ao rei Fernandino, viveu até uma idade avançada com a sua querida Biancabella e Samaritana, e deixou filhos legítimos que herdaram o seu reino.”

Ficamos aqui, então, com a parte final desse conto do Straparola. Comentem o que acharam dessa longa novela!

Laís

6 Comments on Biancabella e a Cobra, de Giovanni Straparola: Parte III

  1. Nivea
    28/07/2014 at 18:30 (3 anos ago)

    Biancabella seria uma especie de Branca de Neve italiana, visto que Bianca em italiano quer dizer Branca… existem muitas outras histórias com esse nome “Branca de Neve”… poderiam fazer uma pesquisa com isso?

    • Laís Sperandei
      28/07/2014 at 20:50 (3 anos ago)

      Eu não diria que Biancabella seria uma das versões de Branca de Neve (é mais parecida com a da Rapunzel, na realidade…), mas é interessante ver outras opiniões. Nós chegamos a fazer um post sobre as “verdadeiras” Brancas de Neve, tu chegou a ler? E pode ter certeza de que a tua sugestão foi anotadinha aqui e nós vamos procurar por mais contos! Um beijo, Nivea!

      • Nivea
        30/07/2014 at 13:48 (3 anos ago)

        Li sim, sobre as verdadeiras Brancas de Neve, até comentei… rs

        Pela parte dos cabelos que dão joias sim, muito Rapunzel isso, mas especialmente pela parte da inveja de uma madrasta (do príncipe nesse caso) e por mandar assassinos no encalço da virtuosa princesa… e o nome da personagem, claro.

        É muito comum unir histórias diferentes, em uma só para criar novas…

        • Laís Sperandei
          31/07/2014 at 01:27 (3 anos ago)

          Sim, sobre os “caçadores”, concordo plenamente. Acredito que como eram histórias passadas de boca a boca, eram conhecidas em muitos lugares, mas de maneiras diferentes. Vai que, né?

  2. Sra Michaelis
    03/09/2015 at 20:10 (2 anos ago)

    Hmm, legal. Mais um conto de Fada para contar a noite às minhas irmãs (Que á proposito, são mais velhas do que eu, mas adoram essas coisas! rsrsrsrs). Li o comentário da Nivea, e é verdade, me lembrou muito Branca de Neve, mais ou menos pelos mesmos pontos que ela citou. Não li o post sobre As verdadeiras Brancas de Neve, mas estou muito interessada, vou procurar!
    Parabéns pelo trabalho mocinhas! Tudo de bom!