A Princesa Rã, do livro Contos de Fadas Russos

Como já havia dito aqui, tenho um livro que se chama Contos de Fadas Russos, onde se reunem as peripécias do bobo Ivan e de outros célebres personagens dos contos de fadas russos. Devido a uma publicação na nossa página do Facebook, alguns leitores nos sugeriram a enfatizar mais os contos de fadas russos, já que são tão interessantes e peculiares.

Dessa vez vou contar para vocês a história da Princesa Rã, que inclusive já foi contada aqui no blog (mas sendo uma adaptação do Italo Calvino). O conto permanece com a mesma abordagem, mas com alguns detalhes diferentes. Espero que gostem!

Captura de Tela 2014-07-22 às 07.14.58“Há muito tempo atrás, muito antigamente mesmo, havia um rei que tinha três filhos, todos já adultos. Certo dia, o rei chamou-os e disse:

– Meus filhos, quero que cada um de vocês faça um arco e atire uma flecha. Aquela que trouxer sua flecha de volta será sua mulher; aquele cuja flecha não for trazida de volta não se casará.

O filho mais velho atirou sua flecha, e a filha de um príncipe trouxe-a de volta. O filho do meio atirou sua flecha, e a filha de um general trouxe-a de volta. Mas a flecha do principezinho Ivan foi trazida de volta do pântano por uma rã, que a segurava entre os dentes. Seus irmãos estavam alegres e felizes, mas o príncipe Ivan ficou triste e chorou:

– Como vou viver com uma rã? Afinal de contas, é algo para a vida inteira, não é como cruzar um rio ou atravessar um campo!

Chorou muito, muito, mas não havia como se safar e, por isso, ele tomou a rã como esposa. Todos os três filhos e suas noivas casaram-se de acordo com os costumes do país; a rã foi colocada em cima de um prato para a cerimônia.

E passaram a viver juntos. Certo dia, o rei pediu a todas as três noivas que lhe dessem presentes feitos por elas, a fim de saber qual era a mais habilidosa das três. O príncipe Ivan ficou novamente muito triste, e chorou lamentando-se:

– O que minha rã pode fazer? Todos vão rir de mim!

A rã só pulava no chão e coachava. Quando o príncipe Ivan caiu no sono, ela saiu até a rua, lançou fora a sua pele e transformous-se numa jovem lindíssima, que gritou:

– Amas, amas! Façam alguma coisa!

As amas trouxeram imediatamente uma camisa de tecido muito fino e delicado. A moça pegou-a, dobrou-a e colocou-a ao lado do príncipe Ivan, e transformou-se novamente em rna. como nunca tivesse sido outra coisa na vida! O príncipe Ivan acordou, ficou radiante de felicidade com a camisa e levou-a ao rei, que a recebeu, examinou e disse:

– Bem, essa é realmente uma camisa para ser usada em festas!

Depois o irmão do meio trouxe uma camisa. O rei disse:

– Essa só serve para ir tomar banho!

E, quanto à camisa trazida pelo irmão mais velho, o rei exclamou ao vê-la:

– Esta só pode ser usava na cabana de um campoês bem pobre!

Os filhos do rei foram embora, e os dois mais velhos comentaram entre si:

– Fizemos mal ao fazer troça da esposa do príncipe Ivan, ela não é uma rã, é uma feiticeira astuciosa!

O rei fez outro pedido à suas noras; dessa vez, deviam assar um pão e trazê-lo diante dele para que pudesse saber qual delas cozinhava melhor. Antes do primeiro concurso, as mulheres dos dois filhos mais velhos tinham ridicularizado a rã. Mas agora mandaram uma camareira espioná-la e ver o que faria para assar seu pão. A rã ficou sabendo disso e misturou os ingredientes, amassou tudo muito bem, esvaziou o forno pela parte de cima e colocou seu pão lá dentro. A camareira viu isso e correu para contar às suas senhoras, que então fizeram exatamente o mesmo. Mas a esperta rã as enganara; assim que a camareira saiu, ela tirou o pão do forno, limpou e arrumou tudo como se nada tivesse acontecido, e depois foi para a varanda, tirou sua pele de rã e gritou:

– Amas, amas! Assem-me um pão tão delicioso como o que meu querido sogro come somente nos domingos e feriados!

As amas trouxeram o pão imediatamente. A moça pegou-o, colocou-o ao lado do príncipe Ivan adormecido e transformou-se novamente em rna. O príncipe Ivan acordou, pegou o pão e levou-o a seu pai. Justo naquele momento o rei estava examinando os pães trazidos pelos filhos mais velhos. Suas mulheres tinham posto seus pães no forno exatamente como a rã fizera, e tudo quanto conseguiram tirar de lá foi uma massa informe. Primeiro o rei pegou o pão do filho mais velho, olhou para ele e mandou-o de volta para a cozinha; depis pegou o pão do segundo filhoe  também mandou de volta. Depois foi a vez do príncipe Ivan; ele apresentou seu pão. O pai recebeu-o, examinou-o e disse:

– Puxa, essa pão é digno de uma festa! Não está mal assado como o das minhas noras mais velhas!

Depois disso, o rei resolveu dar um baile para ver qual das noras dançava melhor. Todos os convidados e as noras se reuniram, e também os filhos, exceto o príncipe Ivan, que ficou triste: como poderia ir ao baile com uma rã? E nosso príncipe começou a chorar. A rã disse:

– Não chore, príncipe Ivan. Vá ao baile. Estarei lá daqui a uma hora.

O príncipe Ivan reanimou-se um pouco ao ouvir as palavras da rã; saiu para o baile, e a rã lançou fora sua pele e vestiu uma roupa maravilhosa. Chegou ao baile; o príncipe Ivan sentiu-se felicíssimo, e todos os convidados bateram palmas ao vê-la: que beldade! Os convidados começaram a comer e beber; a princesa pegou um osso e enfiou-o na manga do vestido; bebeu de uma taça e derramou as últimas gotas na outra manda. As sposas dos irmãos mais velhos viram o que ela tinha feito e também puseram ossos em suas mangas, e sempre que bebiam uma taça de vinho, derramavam as últimas gotas na outra manga. O czar chamou suas noras mais velhas, mas elas cederam sua vez à rã. Ela pegou imediatamente o braço do príncipe Ivan e dirigiu-se para a pista. Dançou e dançou, girou e girou, uma maravilha de se olhar! Acenou a mão direita e apareceram lagos e bosques; acenou a mão esquerda, e vários pássaros começaram a voar pelo salão. Todos estavam assombrados. Ela terminou de dançar e tudo o que criara desapareceu. Depois as outras noras se dirigiram para a pista. Queriam fazer o que a rna dizera; acenaram a mã direita, e os ossos voaram direto nos convidados; e de sua manga esquerda voaram salpicos de vinho, que também atingiram os convidados. O rei ficou aborrecido com aquilo, e gritou:

-Chega, chega!

As noras pararam de dançar.

O baile terminara. O príncipe Ivan foi para casa primeiro, encontrou em algum lugar a pele de sua mulher, pegou-a e queimou-a. Ela chegou, procurou a pele, mas ela não existia mais, fora queimada. Ela se deitou para dormir com o príncipe Ivan, mas, antes do dia raiar, disse-lhe:

– Se tivese esperado um pouco mais, eu teria sido sua. Agora só Deus sabe quando estaremos juntos novamente. Adeus! Procure-me além das terras mais longínquas, no último reino da terra!

E a princesa desapareceu.

Um ano se passou, e o príncipe Ivan sentia saudades de sua mulher. No segundo ano, preparou-se para sua viagem, recebeu a bênção do pai e da mãe e partiu. Caminhou durante muito tempo e, de repente, viu uma cabaninha com a frente virada para a floresta e os fundos para ele. E disse:

– Cabaninha, cabaninha, fique como antes, como sua mãe a fez, com os fundos para a floresta e a frente para mim!

A cabana virou. Ele entrou. Lá dentro havia uma velha sentada, que disse:

– Fora, fora! De um osso russo nenhum som foi ouvido, nem um vislumbre foi visto, e agora um osso russo chegou à minha casa por sua livre e espontânea vontade. Onde vais tu, príncipe Ivan?

– Antes de tudo, minha velha, dê-me de comer e beber, depois faça-me perguntas.

A velha deu-lhe de comer e de beber e depois o colocou na cama. O príncipe Ivan disse a ela:

– Vovozinha, estou determinado a encontrar Elena, a Fada.

– Oh, meu filho, quanto tempo demoraste! No começo ela se lembrava sempre de ti, mas agora não se lembra mais, e não me visita há muito tempo. Vá agora até a casa de minha irmã do meio, ela sabe mais do que eu.

O príncipe Ivan partiu na manhã seguinte, chegou a uma cabana e disse:

– Cabaninha, cabaninha, fique como antes, como sua mãe a fez, com os fundos para a floresta e a frente para mim!

A cabana virou. Ele entrou e viu lá dentro uma velha sentada, que disse:

– Fora, fora! De um osso russo nenhum som foi ouvido, nem um vislumbre foi visto, e agora um osso russo chegou à minha casa por sua livre e espontânea vontade. Onde vais tu, príncipe Ivan?

– Vou onde está Elena, a Fada, vovozinha.

– Oh príncipe Ivan – disse a velha-, tu demoraste demais para vir! Ela começou a esquecer-te, vai se casar co outro; a cerimônia logo será celebrada. Ela agora está vivendo com minha irmã mais velha. Vá até lá, mas tenha cuidado. Quando te aproximares da casa, elas vão saber; Elena vai se transformar numa roca, e seu vestido, num fio de ouro. Minha irmã vai torcer o fio de ouro; depois que ela o enrolar em volta da roca, vai colocar tudo numa caixa e trancá-la; tu precisas encontrar a chave, abrir a caixa, quebrar a roca, lançar a parte superior da roca atrás de ti e a parte de baixo na tua frente. Então ela aparecerá diante de ti.

O príncipe Ivan saiu, chegou à casa da terceira velha e entrou. A velha estava torcendo o fio de ouro; enrolou-o em volta da roca e colocou tudo numa caixa, trancou-a e guardou a chave num certo lugar. Ela pegou a chave, abriu a caixa, tirou a roca, quebrou-a exatamente como lhe mandaram fazer, lançou a parte de cima atrás de si e a parte de baixo na sua frente. De repente, Elena, a Fada, estava de pé diante dele e cumprimentou-o:

– Oh, você demorou muito para vir, príncipe Ivan! Quase me casei com outro.

E controu-lhe que o outro noivo devia chegar logo. Elena, a Fada, pegou um tapete mágico com  a velha, sentou-se nele com o príncipe Ivan e lá foram elas voando como pássaros. O outro noivo apareceu subitamente e ficou sabendo que eles tinham ido embora. Mas ele também era esperto! Lançou-se no encalço deles, perseguiu-os e perseguiu-os, e chegou muito perto de alcança-los; mas, em seu tapete, eles voaram para a Rússia, e ele, por uma razão qualquer, não podia entrar na Rússia e por isso não voltou. Os felizes noivos chegaram em casa; todos se alegraram, e logo Ivan e Elena pasaram a viver juntos e a prosperar, para a glória de todo o povo.”

Alícia

7 Comments on A Princesa Rã, do livro Contos de Fadas Russos

  1. Anite
    26/07/2014 at 14:17 (3 anos ago)

    Eu não conhecia sequer um conto de fada Russo. Este me agradou muito, assim como muita coisa por aqui. Estou enebriada com tanto conteúdo mágico.

    Amplexos prateados de inverno #

    • Alícia Cohim
      26/07/2014 at 22:37 (3 anos ago)

      Muito feliz que tenha gostado do post e que pense assim do blog, Anite! Obrigada e esperamos que volte sempre! 🙂

  2. Nivea
    30/07/2014 at 13:42 (3 anos ago)

    Eu acabei de ler também a outra versão de Italo Calvino, o mais interessante que eu acho entre os temas dos contos, é que eles são recorrentes: pessoas que foram amaldiçoadas e transformadas em animais, que precisam de provas de amor e desapego a beleza, para que a maldição se desfaça…

    Li uma vez, que pela simbologia da época medieval, um príncipe ou princesa amaldiçoados a viverem como animais (sapos são mais comuns, mas já vi transformados em ursos e cisnes), era para demonstrar que eles não estavam prontos para viverem o amor, o sexo ou o casamento e deviam esperar a maior idade para isso, a transformação é quando esse momento chega e a maldição é como uma garantia pela pureza e a virgindade, tão prezadas, principalmente, para moças nos tempos em que essas histórias foram criadas…

    • Alícia Cohim
      30/07/2014 at 17:08 (3 anos ago)

      Ótimo comentário, Nívea. Incrível como os contos nos ensinam tanto de maneira tão simples, não é mesmo? E é incrível também como eles conseguem se aplicar nas nossas vidas tão perfeitamente mesmo nos dias de hoje… Outro dia, por coincidência ou não, estava escrevendo um conto para o blog (vai ser postado daqui há alguns dias) e pensei exatamente nisso!

      Obrigada pelo comentário,

      Beijos!

      • Nivea
        30/07/2014 at 21:03 (3 anos ago)

        De nada, é por isso que eu gosto tanto de contos de fadas, da maneira como nos ensinam valores importantes hoje em dia e os significados que demonstram como a sociedade medieval era e sua cultura além dos livros de história que criaram um esteriótipo muito negativo…

    • Alícia Cohim
      31/07/2014 at 07:35 (3 anos ago)

      Obrigada Nívea, irei dar uma lida 🙂