Biancabella e a Cobra, de Giovanni Straparola: Parte II

Continuando de onde paramos no conto Biancabella and the Snake… Vocês já leram a primeira parte, né?

“A fama da beleza sobrenatural de Biancabella já se havia espalhado por todo o Universo, e muitos reis, príncipes e marqueses acorriam de todas as partes para conquistar-lhe o amor e obter-lhe a mão. Nenhum deles, contudo, mostrava as qualidades necessárias, porque todos tinha algum defeito. Enfim, chegou Fernandino, rei de Nápoles, cujo valor e brilhante renome resplandeciam com o sol entre as estrelinhas. Foi ao encontro do marquês e pediu-lhe a mãe de sua filha. Este, vendo-o belo, elegante e bem constituído, além disso, muito poderoso pelas suas terras e pelas suas riquezas, concluiu a aliança. Chamou a filha e, imediatamente, os jovens se tocaram as mãos e se beijaram.

Assim que ficaram noivos, Biancabella se lembrou das palavras afetuosas de Samaritana. (Nota da tradutora: “Nesse ponto, Straparola esqueceu de nos dizer o que Samaritana ordenou a Biancabella. Talvez seja punida por ter se apaixonado sem o consentimento da irmã.”) Então, se afastou de Fernandino e, fingindo ter algo a fazer, se retirou para o seu quarto. Lá se fechou, depois entrou no jardim por uma porta escondida, e começou a chamar, baixinho, por Samaritana. A cobrinha, porém, não aparecia diante da irmão como antes. Num primeiro momento, espantada Biancabella ficou, em seguida, muito aflita, porque ela sabia bem que o fato de ter desobedecido era a causa da ausência de Samaritana. Encerrando em si mesmo a sua tristeza, voltou para sentar-se perto do noivo, que a esperara por um longo tempo. Após as núpcias, Fernandino a levou a Nápoles, onde foi recebido com pompa e circunstância por toda a cidade, no meio de alegres gozos e ao som de trombetas.

A madrasta de Fernandino tinha, ela própria, duas  filhas, duas vis porcalhonas, e gostaria muito de casar uma delas com Fernandino. Mas toda a esperança de alcançar os seus fins se desvaneceu e ela se inflamou de tanta raiva e de tamanho ressentimento contra Biancabella, que não conseguia suportá-la. No entanto, fingia amá-la. A sorte quis que o rei de Túnis, após grandes preparativos na terra e no mar, atacasse Fernandino. Se era por causa de sua mulher ou por outra razão, não sei. Porém, ele já havia franqueado as fronteiras com o seu poderoso exército, de modo que foi preciso que Fernandino pegasse as armas para defender o seu reino. Por isso, acabados os preparativos, ele confiou Biancabella, grávida, à sua mãe e se pôs em marcha com os soldados.

The Girl with no Hands, de H. J. FordPoucos dias depois, a cruel e impudica madrasta decidiu mandar que matassem a jovem mulher. Chamou, pois, fiéis servidores e lhes ordenou que fossem a algum lugar com Biancabella, como que a passeio, e que não a deixassem antes de assassiná-la. Deviam, além disso, trazer uma prova do seu trespasso. Os valetes, prontos para cometerem a má ação, obedeceram à sua senhora. Levaram Biancabella, assim, sem mais, a um bosque e já estavam prestes a apunhá-la quando, vendo-a tão linda e tão encantadora, foram tomados de compaixão. Em vez de matá-la, cortaram-lhe ambas as mãos e lhe arrancaram os olhos, e os foram apresentar à madrasta. Então, essa mulher impiedosa, sentiu-se transbordar de alegria. Para facilitar a realização do seu desejo perverso, a celerada espalhou por todo o reino o boato de que as suas duas filhas haviam sucumbido, um, à febre contínua, a outra, sufocada por um abcesso perto do coração, e que Biancabella, desesperada com a partida do marido, perdera o bebê e fora atingida por uma febre terçã que a minava. Podia-se, no entanto, esperar que ela sobrevivesse, acrescentava a madrasta. Mas a criminosa já havia posto uma das suas filhas na cama do rei, como se fosse Biancabella, febril.

Fernandino, que já derrotara e dispersara o exército inimigo, regressava para casa como vencedor. Esperava ver a sua querida Biancabella toda alegre, mas a encontrou de cama, magra, desbotada, irreconhecível. Aproximou-se bem, olhou-a com atenção, e, vendo-a tão mudada, ficou pasmado, porque não podia crer que era ela. Mandou que a penteassem e, em vez das jóias e das pedras preciosas, eram enormes pulgões, que não paravam de roer-lhe a cabeça. Das suas mãos de que saíam, outrora, rosas e outras flores perfumadas, desprendia agora uma casca que cortava o coração. Mas a madrasta de Fernandino o reconfortava e lhe dizia que era o efeito normal da longa enfermidade de sua esposa.

A pobre Biancabella estava, portanto, sozinha, banhada em lágrimas, com as mãos cortadas e os olhos arrancados, num lugar afastado, e não parava de chamar e de chamar a sua irmã Samaritana, para que a socorresse. Contudo, ninguém lhe respondia, a não ser o eco que preenchia o ar. Enquanto a infeliz sofria e deplorava a própria sorte, entrou no bosque um homem muito idoso, de aspecto amável e muito compassivo. Ao ouvir a triste voz de Biancabella, apurou os ouvidos, acercou-se e encontrou a moça, cega e mutilada, lamentando-se, amarga, do seu destino. O bom velho não conseguiu suportar que ela ficasse no meio do matagal. Tomado por uma piedade quase paternal, levou-a para casa dele e a confiou à sua esposa, com a ordem expressa de cuidar dela. Depois, dirigindo-se às três filhas, semelhantes à três rútilas estrelas, recomendou-lhes, com ardor, que lhe fizessem companhia, que a acarinhassem e que não deixassem que nada lhe faltasse. Fervendo de raiva, a mulher, que tinha o coração duro, opôs-se, com violência, ao marido: “O que quer?!”, exclamou, “O que quer que façamos com essa criatura cega e estropiada? Foram, sem dúvida, os seus méritos que lhe valeram isso!” O velho, irritado, respondeu: “Faça o que lhe digo. Caso contrário, não espere rever-me em casa.”

Voooooltaremos.

Laís

0 comment on Biancabella e a Cobra, de Giovanni Straparola: Parte II

  1. Elisa
    23/07/2014 at 13:45 (3 anos ago)

    E a ultima parte, quando sai? Quero saber o fim, por favor!!!!!

    • Laís Sperandei
      23/07/2014 at 14:04 (3 anos ago)

      Elisa, peço mil desculpas pela demora. Imagino a ansiedade em saber o final! Essa semana ainda a terceira e última parte será postada. Agradeço pelo comentário! Beijos! :*

  2. Sra Michaelis
    03/09/2015 at 19:47 (2 anos ago)

    Seria bem menos maldoso com a própria Biancabella se eles á tivessem matado ao invés de tela mutilado e arrancando-lhe os olhos! Que crueldade!!

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  1. […] de Biancabella e sua querida irmã Samaritana… (E se tu ainda não leu a parte I ou a parte II, corre […]