As Fadas, de Charles Perrault (tradução de Monteiro Lobato)

Tenho um livro em casa que se chama Contos de Fadas e nele há uma seleção de alguns contos do Charles Perrault traduzidos pelo Monteiro Lobato. Comprei na Estante Virtual, se não me engano, há muito, muito tempo. Ele tem umas ilustrações bem bonitas e os seguintes contos: A Capinha Vermelha, As Fadas, Barba Azul, O Gato de Botas, Pele de Asno, A Gata Borralheira, Riquet Topetudo, A Bela Adormecida e O Pequeno Polegar.

Hoje, vou contar para vocês um conto desse livro. Chama-se As Fadas e vocês devem até lembrar dele porque ele já foi contado aqui pela Laís, há um tempinho. Resolvi recontar esse lindíssimo conto porque essa versão é um pouquinho diferente (não na essência), até porque foi traduzida pelo Monteiro Lobato. O conto é lindo e a moral dele também, por isso é sempre bom ser lembrado.

Espero que gostem!

“Era uma vez uma viúva com duas filhas. 

A mais velha, muito má e orgulhosa, parecia com a mãe em tudo. Ver uma moça era ver a outra.

A mais moça, porém, primava pela bondade de coração e pela beleza do rosto. Tinha puxado ao pai, um homem muito bom e sério. Justamente por isso, a viúva tinha-lhe ódio; fazia-a comer na cozinha e forçava-a a trabalhar sem descanso.

Entre outros serviços pesados, a pobre menina era obrigada a trazer duas vezes por dia um grande pote de água duma fonte a meia légua de distância. Verdadeiro castigo.

Certa ocasião em que estava na fonte enchendo o pote, apareceu uma velha que lhe pediu de beber.

as-fadas-de-charles-perrault– Pois não, minha senhora, respondeu delicadamente a menina – e lavou o fundo do pote, encheu-o da melhor água e ficou segurando-o no ar enquanto a velha bebia.

– Você é tão bonita e boa, disse a velha, que bem merece um dom. (Era uma fada que se disfarçava de velha para experimentar a bondade das meninas.)

– Que dom?

– Cada vez que falar rolará da sua boca uma flor ou uma pedra preciosa.

Disse e sumiu.

A menina voltou para casa muito contente – e levou logo uma descompostura por ter-se demorado mais do que de costume.

– Peço-lhe perdão, minha mãe, por ter-me retardado tanto, disse ela humildemente – e ao falar duas rosas, duas pérolas e dois lindos brilhantes pularam da sua boca.

– O que é isso?, exclamou a mãe assombrada, juntando as pedras. De onde vêm tantas riquezas minha filha? (Era a primeira vez que a chamava de filha.)

A menina contou o que se passara à fonte – e mais diamantes rolaram pelo chão.

A mulher ficou pensativa.

– Vou mandar minha Fanchon à fonte. Veja, Fanchon, o que está saindo da boca dessa menina. Não quer possuir o mesmo dom? Basta que vá buscar água e que quando uma velha apareça e peça para beber você a atenda com bons modos.

– Era só o que me faltava, eu andar de pote na cabeça!, respondeu a orgulhosa.

– Pois tem que ir e já, ordenou a mãe, de cara feia.

A moça má foi, resmungando, mas levou o mais lindo jarro de prata que existia na casa. Enquanto o enchia, viu sair da floresta uma dama ricamente vestida, que lhe veio pedir de beber. Era a mesma velha, agora disfarçada de princesa a fim de ver a até que ponto chegava a ruindade de Fanchon.

– A senhora então acha que vim à fonte para dar água aos outros?, respondeu a orgulhosa. Está aqui este jarro de prata. Se quiser, encha-o e beba.

– Você não é boa de coração nem delicada, disse a princesa sem mostrar sinais de zanga. Bem que merece um dom.

– Qual?

– Cada vez que falar sairá da sua boca um sapo, ou uma cobra.

A moça má mostrou-lhe a língua e voltou para casa furiosa. Assim que a viu chegar, a mãe foi dizendo, de cara alegre:

– Então?

– Então, o quê?, respondeu de mau modo a filha – e dois sapos e duas cobras caíram no chão.

– Deus do céu! O que estou vendo!, exclamou a mãe, horrorizada. Minha filha querida a vomitar sapos e cobras, e tudo por causa daquela pestinha! Deixa estar que ela me paga…

Disse e avançou para cima da menina boa, a qual fugiu correndo para a floresta, justamente quando por lá ia passando o filho do rei, que saíra à caça.  Vendo uma tão bela criaturinha, ele perguntou-lhe o que fazia ali sozinha e por que motivo chorava.

– Ai de mim!, suspirou a boa menina. Minha mãe acaba de expulsar-me de casa – e, ao dizer isso, caíram-lhe da boca cinco rosas, cinco pérolas e cinco diamantes.

O filho do rei assombrou-se e perguntou o significado daquilo e, quando soube de tudo, sentiu-se imediatamente apaixonado e levou-a para o palácio e apresentou-a ao rei, dizendo que com outra não se casaria. Casaram-se e foram muito felizes.

E a má? Oh, a má ficou tão mais má depois desse acontecimento, que nem a sua própria mãe pôde aturá-la. Foi expulsa de casa e como ninguém quisesse saber dela, morreu abandonada num lugar escuro do bosque.”

Alícia

0 comment on As Fadas, de Charles Perrault (tradução de Monteiro Lobato)

  1. Nivea
    30/07/2014 at 14:55 (3 anos ago)

    Como é fácil encontrar um milionário dando sopa por aí né? E que se apaixone imediatamente pela gente… Não custa nada sonhar…

    • Alícia Cohim
      30/07/2014 at 17:10 (3 anos ago)

      Hahaha, nem fale! Da mesma forma que tem muita coisa ruim que não gostaríamos que acontecesse conosco nesses sonhos, tem muita coisa boa que torcemos para que aconteça!

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  1. […] A história também me lembra um pouco As Fadas, do Perrault, que eu e a Alícia postamos aqui e aqui. A versão que irei postar é a que tem no livro Noites Agradáveis, com contos do Straparola […]

  2. […] Barba Azul ♥ Os desejos ridículos ♥ As Fadas ♥ Pele de Asno […]