A Noiva Cadáver

A Noiva Cadáver. O que vem a mente? “TIM BURTON!”

Ok, sabemos disso.

Não me lembro o porquê de eu ter começado a pesquisar, mas acabei descobrindo que não, a história macabra desses noivos (Threesome! Shippo muito.) não surgiu do filme do Burton, e sim de um conto russo. “Outro?” Sim, outro.

Dizem que o conto A Noiva Cadáver, na realidade, é uma história que foi baseada em fatos verídicos que ocorreram na Rússia do século 19, numa época em que o antissemitismo (preconceito contra judeus) era comum na Europa Oriental. Muitas vezes, bandos de antissemitas surpreendiam carruagens a caminho de casamentos judaicos e, como a noiva seria a única pessoa a “suportar” o peso das futuras gerações, eles tiravam ela a força da carruagem e a assassinavam, enterrando-a em seu vestido de casamento. Trágico, eu sei.

Enfim, celebrando a semana de Halloween, ta aí pra vocês o conto (que eu traduzi, então colaborem…).

“Era uma vez um jovem rapaz que vivia em um pequeno vilarejo da Rússia. Como estava prestes a se casar, ele e seu amigo se prepararam para ir ao vilarejo no qual morava sua futura esposa, que ficava a dois dias de caminhada do seu.

Na primeira noite, os dois amigos decidiram montar acampamento na beira de um rio. O rapaz olhou para o chão e avistou um graveto de formato estranho cravado na terra, que parecia um pequeno dedo ossudo. Ele e o seu amigo começaram a brincar sobre o “graveto dedo ossudo” e o rapaz retirou o um anel de ouro de seu bolso e colocou no graveto estranho. Então, ele começou a se mover no ritmo da música do de casamento. Ele dançou em volta do graveto com o anel, cantando a canção tradicional do casamento judaico e recitando os seus votos de casamento enquanto dançava, com o amigo rindo sem parar de seu teatro.

A felicidade deles acabou de repente, quando a terra começou a tremer e se mover abaixo de seus pés. O lugar onde o graveto estava se abriu e de lá um cadáver muito sujo surgiu. Um cadáver vivo, que um dia fora uma noiva, mas que agora era pouco mais que ossos segurados por fragmentos de pele, ainda usando um velho e rasgado vestido de casamento de seda branco, com teias de aranha penduradas no corpete uma vez frisado, e um véu todo esfarrapado.

Os dois jovens ficaram horrorizados.

“Ah”, disse ela, “você dançou a dança do casamento, pronunciou os votos e colocou um anel em meu dedo. Agora somos marido e mulher. Exijo meus direitos como sua esposa.”

Tremendo de medo ao ouvir as palavras da noiva cadáver, os dois jovens fugiram para o vilarejo onde a jovem noiva estava esperando para se casar. Ao chegarem, foram direto para o rabino.

“Rabino”, perguntou o rapaz sem fôlego, “eu tenho uma pergunta muito importante para lhe fazer. Se por algum acaso você estiver andando na mata e acontecer de você ver um pedaço de pau que se parece com um dedo longo e ossudo que sai do chão e acontecer de você colocar um anel de casamento de ouro neste dedo e fazer a dança do casamento e pronunciar os votos de casamento, isto é, de fato, um casamento real? “

Olhando muito confuso, o rabino perguntou: “Sabe de uma situação como essa?”

“Oh não, não, claro que não, é apenas uma questão hipotética!”

Acariciando sua longa barba, o rabino disse: “Deixe-me pensar sobre isso.”

Porém, com uma grande rajada de vento, a porta se abriu e revelou a noiva cadáver.

“Eu reivindico este homem como meu marido, pois ele colocou esta aliança em meu dedo e pronunciou os votos de matrimônio!”, ela exigiu.

“Este é realmente um assunto muito sério. Vou ter que consultar os outros rabinos”, disse o rabino.

Logo, todos os rabinos dos vilarejos vizinhos estavam reunidos. Entraram em conferência, enquanto os dois jovens aguardavam ansiosamente a sua decisão.

A noiva cadáver esperou na varanda batendo o pé , declarando: “Eu desejo celebrar minha noite de núpcias com o meu marido.”

Essas palavras fizeram todos os cabelos do corpo do jovem arrepiarem-se, mesmo sendo um dia de verão.

Enquanto os rabinos reuniam-se, a noiva humana chegou e quis saber sobre o que era todo aquele alarido. Quando seu noivo explicou o que tinha acontecido, ela começou a chorar: “Oh, minha vida está em ruínas! Todas as minhas esperanças e sonhos estão destruídos. Eu nunca irei casar, nunca irei ter uma família!”

Só então o rabino perguntou: “Você realmente colocou um anel no dedo dela, dançou em torno dela três vezes e pronunciou os votos de matrimônio em sua totalidade?”

Os dois jovens, que a esta altura já estavam encolhidos em um canto distante, assentiram com a cabeça.

Olhando muito sério, o rabino retornou para a conferência.

A jovem noiva chorava lágrimas amargas enquanto a noiva cadáver estava exultante com a perspectiva de seu aguardado casamento.

Depois de um curto período de tempo, os rabinos solenemente marcharam para fora, tomaram seus assentos, e um deles anunciou: “Uma vez que você colocou um anel de casamento no dedo da noiva e dançou em torno dela três vezes, recitando os votos de matrimônio, nós determinamos que isto constitui uma cerimônia de casamento adequado. Mesmo assim, decidimos que os mortos não têm nenhuma reivindicação sobre a vida.”

Suspiros e murmúrios podiam ser ouvidos de todos os cantos e a jovem noiva respirou aliviada.

A noiva cadáver, porém, gritou: “Oh, lá se vai a minha última chance de viver. Eu nunca vou ter os meus sonhos realizados. Agora tudo está perdido para sempre.” e ela caiu no chão. Era uma visão patética: um monte de ossos em um vestido de casamento esfarrapado, deitado, sem vida.

Cheia de compaixão para com a noiva cadáver, a jovem noiva se ajoelhou e recolheu aquela velha pilha de ossos, organizando cuidadosamente a elegância de seda desfiada e, abraçando-a, meio que cantou, meio que murmurou, como se estivesse embalando um bebê que chora.

“Não se preocupe. Eu viverei suas esperanças por você. Vou ter os seus filhos por você, vou ter filhos o suficiente para nós duas e você poderá descansar em paz, sabendo que as nossas crianças serão bem cuidadas.”

Carinhosamente, ela fechou os olhos da noiva cadáver, segurou-a nos braços e, lentamente e com passos medidos, ela a levou à beira do rio, onde cavou uma cova rasa e a colocou nela, cruzando os braços ossudos sobre o peito magro, deixando as mão pousadas levemente, com o anel de ouro cintilando em seu dedo, e dobrou o vestido de casamento ao seu redor.

Em seguida, sussurrou: “Que você descanse em paz. Eu viverei os seus sonhos por você. Não se preocupe, não vamos nos esquecer de você.”

A noiva cadáver parecia feliz e em paz em sua nova sepultura, como se de alguma forma ela soubesse que aquela promessa seria cumprida através desta jovem noiva. Após levantar-se, a noiva cobriu lentamente a noiva cadáver com terra, colocando flores silvestres e pedras ao redor dela.

Em seguida, a noiva voltou para o seu noivo. Assim, eles se casaram em uma cerimônia muito solene e viveram muitos anos felizes juntos. E contaram a todos os seus filhos, netos e bisnetos a história da noiva cadáver e, por isso, ela nunca foi esquecida.”

Hasta luego!

Laís

5 Comments on A Noiva Cadáver

  1. Gabrielle
    31/01/2014 at 00:12 (4 anos ago)

    Ótimo conto. Gostaria de saber qual o ”outro” que o Tim ”plagiou”.

    • Laís Sperandei
      31/01/2014 at 00:33 (4 anos ago)

      Oi! Que bom que gostou! E ah, o “outro” faz referência aos contos russos, que fazem parte de muitos dos nossos posts aqui no blog. 🙂

  2. Thalita
    18/04/2015 at 10:45 (2 anos ago)

    Ficou lindo, muito obrigado por escrever esse artigo, eu amei.

    • Laís Sperandei
      18/04/2015 at 10:49 (2 anos ago)

      De nada, Thalita! A gente adora! Beijão. ❤

    • Laís Sperandei
      30/06/2015 at 13:21 (2 anos ago)

      Que bom que gostou, Thalita! Ficamos muito felizes! 🙂