Sfortunata (A Princesa da Triste Sina), de Giuseppe Pitrè

Também chamado de “A Azarenta” (é o que Sfortunata significa, mas não gostei muito da tradução), essa é uma história contada a Giuseppe Pitrè por Agatuzza Messia.

“Era uma vez um rei, uma rainha e suas sete filhas. Naquele tempo havia sido declarada guerra ao pai. Derrotado nas batalhas, ele caiu prisioneiro e perdeu o trono. Durante o cativeiro, a família real passou por sérias dificuldades. A rainha foi obrigada a deixar o castelo e a recolher-se, com suas filhas, em uma modesta cabana. As agruras eram tantas que mesmo para comer contavam com milagres.

Certo dia um vendedor de frutas, que passava pelo local, foi chamado pela rainha, que desejava comprar figos. Enquanto fazia a compra, uma mulher muito velha aproximou-se e lhe pediu uma esmola.

– Ai, boa mãe! – retrucou a rainha. – Se eu pudesse, não lhe daria apenas uma esmola. Mas eu também sou uma pobre alma, não tenho nada.

-E o que houve? Por que sois tão pobre? – perguntou a velha.

-Não o sabeis? Eu sou a rainha da Espanha. Caí na desgraça por causa da guerra que fizeram contra meu marido.

-Pobre alma! Tendes razão: por tudo vossa família fracassa! Uma de vossas filhas é perseguida pela desgraça… Enquanto a moça permanecer entre vós, jamais podereis ter sorte.

-Ah sim, minha senhora?! Porventura, qual delas é essa filha desafortunada?

-É aquela que dorme com as mãos cruzadas sobre o peito.

-E o que devo fazer?

-À noite, enquanto elas dormem, deveis acender uma vela e observá-las. Aquela que encontrardes com as mãos cruzadas devereis mandar embora. Só assim podereis reconquistar vosso reino perdido.

Na mesma noite, à meia-noite, a rainha com uma vela na mão, colocou-se diante dos leitos de suas filhas. Todas dormiam: a primeira com as mãos juntas; a segunda com as mãos sob o rosto; a terceira com as mãos sob o travesseiro, e assim por diante. Quando chegou junto à mais nova, viu que ela dormia com as mãos cruzadas.

-Ai, minha filhinha! Justamente a ti é que devo mandar embora!

Enquanto dizia isso, a pequena acordou e viu a mãe com a vela na mão e os olhos cheios de lágrimas.

-Mamãe, o que se passa?

-Ah… minha filhinha…, é que por aqui passou uma velha que me disse que uma de minhas filhas – aquela que dorme com as mãos cruzadas – encontra-se sob o signo da desgraça. E que não voltaríamos a ter sorte na vida enquanto não a mandarmos embora. E essa infeliz és tu!

-Não deveis chorar por isso, mãe. Logo me visto e de nossa casa partirei.

Vestiu-se, atou suas coisas numa trouxa e imediatamente partiu. Depois de muito andar, chegou a uma relva deserta onde só havia uma única casa. Quando se aproximava, ouviu o taramelar de um tear e viu um grupo de mulheres que teciam.

-Queres entrar? – perguntou uma das tecelãs.

-Sim, boa mulher.

-Como te chamas?

-Azarenta.

-E tu queres servir-nos?

-Sim, boa mulher.

E ela começou a varrer e fazer o trabalho de casa. Chegada a noite, as mulheres lhe disseram:

-Escuta, Azarenta, agora partiremos e te fecharemos à chave pelo lado de fora. Tu deves trancar a casa por dentro. Quando voltarmos, nós abriremos pelo lado de fora e tu pelo lado de dentro. Deves ter cuidado para que não nos roubem a seda, os debruns, e os panos de linho que foram tecidos.

Dito isto, elas partiram.

Por volta da meia-noite, Azarenta ouviu o bater de tesouras. Pegou uma vela e se aproximou do tear. Viu uma mulher que estava cortando com uma tesoura todo o pano de linho dourado que havia sido tecido.

Naquele momento ela compreendeu que a mulher era a sua má sina, que a havia seguido até ali.

Na manhã seguinte as tecelãs voltaram. Enquanto abriam a porta pelo lado de fora, a moça abria pelo lado de dentro. Assim que entraram viram todo o seu trabalho destruído e espalhado pelo chão.

-Oh, sua impertinente! É essa a recompensa por te darmos abrigo? Vai embora, imediatamente! Fora!

E a puseram para fora a pontapés.

Azarenta continuou peregrinando pelos campos, à mercê do destino. Chegando a uma aldeia, deteve-se diante de um armazém de pão, verduras, vinho e outras coisas. Pediu uma esmola. A dona lhe deu pão, verduras, toucinho e um copo de vinho. Nisso entrou o dono. Com pena da moça ele a convidou para passar a noite com eles, acomodando-a sobre os sacos do depósito do armazém.

Durante a noite, os donos, que dormiam no cômodo no andar de cima do depósito, ouviram barulhos e se levantaram: todos os tampões dos tonéis haviam sido retirados; o vinho corria por toda a casa. Quando viu a desgraça, o homem foi ter com a moça – que estava deitada sobre os sacos e gemia, lamentando-se.

-Impertinente! Só tu podes ter feito isso! – E pegou uma vara e bateu nela. Em seguida enxotou-a para a rua.

Ela não sabia para onde se dirigir e se exauriu chorando.

Quando se fez dia, Azarenta encontrou uma mulher no campo, que estava lavando roupa.

-Por que tu olhas dessa maneira? – inquiriu a mulher.

-Senhora, não sei aonde devo ir.

-Sabes lavar?

-Sim, boa mulher.

-Então fica aqui e ajuda a lavar. Eu ensabôo a roupa e tu a enxáguas.

Azarenta começou a enxaguar a roupa e a pendurá-la no varal. A roupa secou, Azarenta recolheu-a, pôs-se a remendá-la e passou-a a ferro cuidadosamente.

Era a roupa do filho de um rei. Quando esse príncipe a viu, pareceu-lhe maravilhosamente limpa.

– Dona Francisca, – disse ele – jamais me lavaste a roupa assim tão bem! Desta vez, fizestes por merecer uma boa gorjeta.

Ele lhe deu dez pratas. Com as dez pratas, dona Francisca vestiu Azarenta da mais bela maneira. Também comprou um saco de farinha e assou pães. Junto com os pães preparou ainda dois bolos redondos e generosamente carregados de anis e sésamo; bolos que pareciam dizer: “Comam-me, comam-me.” E dirigiu-se para Azarenta, instruindo-a:

– Deves ir à beira-mar com estes dois bolos. Lá deves chamar a minha sina da seguinte maneira: “-Aaah! Sina de dona Franciscaaa…!” Assim deves fazer por três vezes. À terceira vez, minha sina aparecerá diante de ti. Entregarás a ela um dos bolos e em meu nome tu lhe darás as minhas saudações. Depois peça que te ensine onde mora a tua sina e procede com a última da maneira como vou te dizer.< Rapidamente Azarenta foi até a beira do mar. -Aaah, sina de dona Franciscaaa! Aaah, sina de dona Franciscaaa! Aaah, sina de dona Franciscaaa! – E a sina de dona Francisca apareceu. Azarenta lhe transmitiu a mensagem e entregou o bolo. E perguntou: -Sina de dona Francisca, poderia Vossa Excelência ter a bondade de me explicar onde mora a minha própria sina? -Escuta, tu segues um trecho por essa trilha de muar, até chegar a um forno. Ao lado do buraco para o esfregão do forno verás uma velha bruxa sentada. Sê especialmente amável para com ela e oferece-lhe o bolo. Ela é a tua sina. Verás que ela não o aceitará e te tratará rudemente. Tu, porém, deves deixar o bolo com ela e prosseguir teu caminho. Azarenta chegou no local indicado e encontrou a velha sentada junto ao forno. Quase não pôde conter seu mal-estar ao vê-la, tão suja, remelenta e fedorenta era ela. – Querida mulherzinha da sina, não quereis dar-me uma alegria… – disse, bajulando-a e oferecendo o bolo. – Some-te! Quem te pediu o bolo? – respondeu ríspida e imediatamente a velha, virando-se de costas para Azarenta. Assim mesmo, a moça docemente depositou o bolo junto a ela e voltou para a casa de dona Francisca. O dia seguinte, uma segunda-feira, era dia de lavar roupa. Dona Francisca pôs a roupa de molho, Azarenta esfregou e enxaguou; enquanto estava seca, ela a remendou e passou a ferro. Dona Francisca colocou a roupa numa cesta e levou-a ao castelo. Quando o príncipe a viu, exclamou: -Dona Francisca, a mim não podeis enganar! Tal roupa como esta jamais me entregastes. – E lhe deu dez pratas de gorjeta. Novamente a lavadeira comprou farinha, assou mais dois bolos e mandou Azarenta com eles para as mulheres da sina. No dia de lavar seguinte, o príncipe, que queria se casar e que dava muita importância a que a roupa estivesse bem limpa, deu uma gorjeta de vinte pratas a dona Francisca. Desta vez ela não comprou apenas farinha para dois bolos, mas também comprou, para a mulher da sina de Azarenta, uma bela blusa com uma saia de crinolina e combinação. Comprou ainda delicados lenços, um pente, pomada de cabelo e outras quinquilharias. Azarenta foi ao forno. – Querida mulherzinha da sina, eis aqui um bolo para ti… A mulher da sina, que entrementes já se havia tornado um pouco mais meiga, achegou-se, resmungando, para receber o pão. Nesse momento, Azarenta se lançou em cima dela, agarrou-a e passou a lavá-la com esponja e sabão, a penteá-la e a vestir a velha, da cabeça aos pés, de roupa nova. A velha, que inicialmente se havia torcido como uma cobra, mudava a olhos vistos seu comportamento quando viu como ela brilhava de tanto asseio. – Escuta, Azarenta – disse ela -, porque tu foste tão boazinha comigo, eu te dou esta caixinha. E ela lhe deu uma caixinha que era tão pequena quanto uma caixinha de fósforos. Azarenta correu de volta para a casa de D. Francisca e abriu a caixinha. Nela estava um pequenino pedaço de debrum. As duas ficaram um pouco desapontadas. – Oh, ela é realmente muito generosa… – disseram; e guardaram o debrum na última gaveta de uma cômoda. Na semana seguinte, quando dona Francisca levou a roupa ao castelo, ela encontrou o príncipe de péssimo humor. A lavadeira, que estava bem familiarizada com o príncipe, perguntou: -O que se passa, príncipe? -Devo me casar, mas agora ocorre que no vestido de noiva falta um pequenino pedaço de debrum. E em todo o reino não é possível encontrar o mesmo desenho de debrum. -Esperai, majestade – disse dona Francisca. Correu para casa, procurou a caixinha na cômoda e levou ao príncipe o pequenino pedaço de debrum. Compararam-no com o desenho do debrum do vestido de noiva e ele coincidia exatamente. O príncipe disse: – Como tu me salvaste de tal constrangimento, eu quero pagar o debrum a peso de ouro. Buscou uma balança, colocou o debrum em um dos pratos e no outro o ouro. Porém, o ouro jamais era suficiente. Quis pesar mais uma vez, noutro tipo de balança, uma de tipo romano: mais uma vez se deu o mesmo resultado. – Dona Francisca, contai-me a verdade. Como é possível um pedaço de debrum pesar tanto? De quem o ganhastes? Dona Francisca, quer quisesse, quer não, teve de contar tudo  e o príncipe quis ver Azarenta. A lavadeira aconselhou-a a vestir-se com muita beleza – com as peças que com o tempo elas haviam guardado – e levou a moça ao castelo. Azarenta entrou no aposento do príncipe e fez diante dele uma profunda reverência, pois ela era a filha de um soberano e não lhe faltava uma boa educação. O príncipe saudou-a e, oferecendo-lhe um lugar, perguntou: – Quem és tu em verdade? – Sou a filha mais nova do rei da Espanha, que foi expulso de seu trono e tornado prisioneiro. Minha má sina obrigou-me a vagar pelo mundo e a suportar toda sorte de grosserias, desrespeito e pancadas. – disse Azarenta. E contou todas as suas experiências. Então, em primeiro lugar, o príncipe mandou buscar as tecelãs, às quais a má sina havia cortado a seda e o debrum. – E qual foi o vosso prejuízo? – perguntou às senhoras. – Duzentas pratas. >- Aqui tendes as duzentas pratas. Sabei que esta moça em quem batestes é uma princesa. Não esqueçais! Desaparecei daqui depressa!

Depois ele mandou que trouxessem os donos do armazém, a quem a má sina havia esvaziado os tonéis.

– E qual foi o vosso prejuízo?

– Trezentas pratas.

– Aqui tendes as trezentas pratas. A próxima vez, porém, pensai duas vezes antes de surrar uma princesa. Fora daqui!

Em seguida, ele desmanchou o noivado com a sua primeira noiva e se casou com Azarenta. Como dama de honra, deu-lhe D. Francisca.

Então chegaram notícias do que havia acontecido à mãe de Azarenta. Quando sua filha mais nova partiu, a roda da sorte começou a girar em seu favor. Um belo dia chegaram seu irmão e seus sobrinhos à frente de um forte exército. Eles reconquistaram o reino. A rainha voltou com suas filhas para o castelo, onde novamente passaram a viver com todo o conforto de antes, embora a mãe vivesse atormentada pela lembrança da filha mais nova, de quem ela não sabia quase nada.

O príncipe, quando soube que a mãe de Azarenta retomara seu reino, enviou seus mensageiros e mandou dizer a ela que havia se casado com sua filha. Encantada, a mãe se pôs a viajar, acompanhada de cavaleiros e damas de honra. Também acompanhada de cavaleiros e damas de honra, a filha foi alcançá-la. Encontraram-se na fronteira e se abraçaram por muito tempo. Muito comovidas, as seis irmãs acompanharam a cena. E nos dois reinos houve uma grande festa.” (Fonte)

Adorável, não?

Emily

2 Comments on Sfortunata (A Princesa da Triste Sina), de Giuseppe Pitrè

  1. Nivea
    31/07/2014 at 13:42 (3 anos ago)

    Lindo, lindo, lindo!!

    • Emily Libanio
      23/08/2014 at 14:19 (3 anos ago)

      Demais! O folclore siciliano é bem interessante, quem sabe daqui um tempo não tenhamos mais contos lindos como o Sfortunata pra você amar por aqui, Nivea? 😉