Kaguya Hime: A Princesa da Lua

Deixando um pouco de lado o meu amor por contos russos, decidi procurar por alguns japoneses e me surpreendi ao ver que tem bastantes deles pela internet. Me apaixonei pelo Kaguya Hime, também conhecido como The Tale of the Bamboo Cutter (O Conto do Cortador de Bambu) ou Princess Kaguya, um conto do folclore japonês do século X. De acordo com muitos, é considerado o mais antigo existente da narrativa japonesa. Esse conto é um dos primeiros a falar sobre a possibilidade da Lua ser um mundo habitado e a descrever viagens entre ela e a Terra.


Kaguya Hime

“Há muito tempo atrás, em um local distante no Japão, vivia um Taketori (cortador de bambu) e sua esposa. Ele gostava de seu trabalho, tanto que nem pensava em enriquecer, gostava da sensação de liberdade ao adentrar a floresta dia a dia, procurando o precioso vegetal. Preferia permanecer pobre e livre, fazendo o que gostava, a trabalhar nas plantações ou em algum outro serviço, onde poderia ganhar mais dinheiro, mas teria que obedecer a regras, horários e supervisores.

Um dia, enquanto desbravava a floresta a procura de bambu, ele viu uma estranha e brilhante luz. Era algo incomum, mas ele não se amedrontou e, na verdade, se sentiu atraído por ela, pois emanava uma sensação de paz. Curioso, seguiu sua intuição e foi rumo a claridade, que vinha de uma moita de bambu escondida entre os pinheiros.

Normalmente ele ficaria espantado pelo fato de aquela moita nascer num local que ele não esperaria, uma vez que sua experiência lhe permitia saber com muita precisão os locais onde bambus podiam crescer, mas no momento a luz dominava seus pensamentos.

O brilho parecia irradiar de dentro de um ramo fino de uma das moitas maiores. Movido por uma força irresistível e inexplicável, o homem caminhou até o bambu e, num golpe de seu machado, o decepou pela metade.

Era uma dádiva dos deuses, ele pensou, uma linda menininha, um bebê em miniatura, de cerca de 10 centímetros de comprimento, estava acomodada no caule do bambu. Ela não se assustara, na verdade ria e transbordava alegria. A tomou na palma de mão e deixou a floresta rumo a sua casa, ansioso por mostrar seu achado a sua esposa.

Sua companheira ficou tão fascinada quanto ele pela beleza da menininha, e considerou também como sendo uma dádiva divina, deixando cair lágrimas de emoção.

Ela tomou a criança de seu marido, que com sua falta de jeito tentava segurar a menina como um saco de arroz, e a acomodou confortavelmente em seu colo pensando no que deveria fazer, e concordaram que deviam criá-la como uma filha.

No dia seguinte, o Taketori voltou ao local onde achara a criança, talvez encontrasse uma outra. Mas nada mais havia, nem a luz, nem o bambu e nem sequer aquela misteriosa moita. Também não havia sinais de que alguém a houvesse extraído, as únicas pegadas e marcas humanas eram as dele.

“Misterioso!” Ele pensou, mas o mais incrível ainda foi quando, ao vasculhar o chão, achou uma pequena pepita de ouro. Ele a recolheu e de repente viu mais uma, e outra e outra. Colheu várias pequenas pedras de ouro até, por fim, recolher a última, a maior de todas. Como o homem não era ambicioso, apenas pensava ao voltar para casa com sua sacola cheia de ouro. Agora poderiam criar a menina adequadamente.

Sua esposa e ele ficaram eufóricos e, no dia seguinte, ele voltou ao mesmo local, onde sem saber muito o que esperar, achou mais pedrinhas de ouro de vários tamanhos. Em apenas dois dias, com a riqueza que achara na floresta, ele se tornou o homem mais rico daquela parte do país.

O casal decidiu chamar a menina de Kaguya Hime. Ela cresceu tão rápido quanto um bambu brotando do solo e, em apenas três meses, ela já era uma jovem e linda mulher. Sua beleza era tão radiante que seu corpo chegava a brilhar e sua simples presença era capaz de transmitir paz, saúde e alegria. Mesmo seus pais tendo muito cuidado com ela, sempre a resguardando em sua própria casa, as poucas pessoas que a avistaram fizeram sua fama correr longe, e logo cinco príncipes chegaram a casa do riquíssimo cortador de bambu para cortejar a dama.

Os cinco não eram príncipes comuns. Por semanas, a fama de Kaguya Hime atraiu muitos pretendentes e houve na cidade muitos duelos e violência até que a razão prevalecesse e se instituíssem competições seletivas. Esse príncipes eram vencedores de uma série de provas tendo dado mostras de sua coragem, capacidade, graça e inteligência.

Foram selecionados centenas de pretendentes, viajaram dias em duros caminhos para a cidade do cortador de bambu e indo direto a sua residência, oferecendo-lhe jóias, especiarias e demais presentes e riquezas. Mas, o homem disse-lhes que de nada adiantariam tais presentes e não os aceitou, pois Kaguya Hime só se casaria com quem ela quisesse.

Embora a princesa não quisesse se casar, os príncipes aceitaram isto como mais um desafio, e permaneceram persistentemente em frente a sua casa até que ela se dignasse a vê-los.

Passou-se o verão e o outono, e os príncipes não desistiram de seu intento, suportando firmemente a espera, desafiando os elementos da natureza, frio, calor, chuvas, vento e insetos. Kaguya Hime era inflexível e não seria vencida por essas demonstrações de persistência, mas o pai da moça, apesar de compartilhar de seu desejo de não casar, apiedou-se dos príncipes.

O velho e rico casal também não queria o casamento da princesa, pois temiam a solidão caso ela fosse embora, mas com a firmeza de propósito dos cinco príncipes, o Taketori também temia que o resultado fosse a morte de um ou mais deles, devido a aproximação do inverno, e com esse argumento convenceu a filha que o melhor meio de dispensá-los seria uma conceder-lhes uma audiência e apresentar-lhes uma recusa formal.

A princesa aceitou apenas devido ao desejo e humanitarismo do pai, pois não queria sequer ver nenhum dos príncipes, e estabeleceu então entrevistá-los em separado, atribuindo a cada um deles um desafio extremamente difícil, na tentativa de dispensá-los definitivamente.

– Ao Primeiro incumbiu de trazer um vaso especial, que escondido numa montanha do continente asiático, pertencera ao próprio Buda.

– Ao Segundo que viajasse até o Monte Horai no extremo leste e trouxesse um ramo de uma árvore do pico da montanha, que não era uma árvore comum, pois seu tronco era de ouro, os galhos de prata e suas frutas de pedras preciosas.

– O Terceiro deveria viajar até a China e trazer a pele do Rato de Fogo, que tinha propriedades mágicas e era insensível ao calor.

– O Quarto teria que obter uma joia que refletia cinco cores, de acordo com a luz que recebesse, mas estava em poder de um dragão que devorava qualquer um que o perturbasse.

– Ao Quinto, deveria achar um pássaro que tinha no estômago uma concha especial.

O pai da princesa observou cuidadosamente cada um dos príncipes e percebeu que, embora todos tenham sentido desagrado devido a enorme dificuldade dos desafios, não demonstraram fraqueza, aceitando-os e jurando cumpri-los. E cada um voltou para seu próprio reino.

O primeiro príncipe sabia das dificuldades que encontraria ao viajar para o continente, para a terra do Buda. Procurar a vasilha de cerâmica em inúmeras montanhas, correr vários riscos em território desconhecido. E, mesmo que encontrasse o artefato, o que já lhe parecia impossível, como seria possível convencer o proprietário a lhe entregar? Não seria muito caro? Ou exigiria mais que dinheiro?

Com tudo isso em mente, não estava disposto já de antemão a realizar a viagem, passando então anos sem fazer nenhum esforço no sentido de completar a incumbência que Kaguya Hime lhe deu.

Um dia, então, foi a um templo budista próximo a seu castelo, e percebeu que praticamente todos os vasos e vasilhames budistas eram iguais. Convenceu o monge do templo a lhe vender um dos maiores e mais antigos e foi levá-lo para a princesa.

O Taketori o examinou primeiro, ficando impressionado com a rapidez com que ele cumprira a missão, e levou o artefato para sua princesa. Esta, por sua vez, passou alguns instantes a investigar o objeto para atestar sua legitimidade e concluiu que era uma farsa, atirando-o ao chão e partindo-lhe em vários pedaços. Recusando-se a ver o príncipe, ordenou que um dos criados o entregasse os pedaços como sinal de desaprovação.

Consciente de sua mentira, o príncipe não disse uma só palavra, recolheu os cacos e partiu.

O segundo príncipe também reconheceu a futilidade do desejo da princesa, e não se disporia a arriscar a própria vida e dispender recursos para viajar para o leste. Decidiu então promover outra fraude, mas no seu caso, bem mais elaborada.

Contratou os melhores joalheiros e artesãos do seu reino e de vários outros, dando-lhes a tarefa de produzir uma falsificação do ramo da árvore de ouro que a princesa queria. A tarefa consumiu muitos anos, mas, por fim, ao ficar pronto, era tão perfeita e bela que poderia iludir qualquer um.

O cortador de bambu ficou impressionado, prestando todo o respeito e reverência ao príncipe. Mesmo a princesa não foi capaz de detectar a fraude, tamanha foi a perícia dos artífices, e o príncipe estava prestes a conquistar seu objetivo.

Mas, um mensageiro veio até a casa da princesa procurando o príncipe para lhe entregar uma mensagem. O cortador de bambu, anfitrião prestativo, se dispôs a lê-la e era uma nota de cobrança dos joalheiros de uma certa província que reclamavam ainda não ter recebido o pagamento pela construção do ramo.

Assim, a fraude foi desmascarada e o segundo príncipe foi também desclassificado.

O terceiro príncipe, assim como os outros, não se prontificou a empenhar uma jornada em busca da relíquia exigida pela princesa, mas contratou um capitão para que, com seu navio e tripulação, procurasse para ele. Sabiamente pagou metade adiantado e pagaria o restante apenas quando estivesse de posse da pele do Rato de Fogo.

Após anos, o capitão voltou com a encomenda. Narrou ao príncipe as incríveis dificuldade de sua jornada, dos terríveis vilões e monstros que ele e sua tripulação enfrentaram e que muitos de seus homens pereceram durante a jornada. O príncipe pagou o restante com acréscimo, para compensar as famílias dos homens que morreram.

O Taketori, que já enfrentara duas tentativas de enganação, recebeu o príncipe em alerta, não querendo ser tripudiado pela terceira vez. O pretendente iniciou sua estória fazendo suas as palavras do capitão que contratara, como tendo enfrentado todos os perigos pessoalmente, mas o pai apenas quis ver e testar a pele do Rato de Fogo.

Ele a colocou num pequeno incinerador e a incendiou, ela deveria ser insensível as chamas mas não foi o que aconteceu, queimou rapidamente sendo destruída e exalando um péssimo odor.

O príncipe ficou revoltado, e deixou escapar numa exclamação sua revolta contra o capitão que o havia enganado, deixando claro que não fora sequer ele que tinha empreendido a jornada.

Com isso, o terceiro pretendente foi também eliminado.

O quarto príncipe estava muito ocupado com o seu reino para despender uma jornada em busca da joia multicolorida que estava em posse de um dragão do mar. Ele temia que sua ausência prolongada agravasse os problemas de seu país e que, se morresse na empreitada, seu reino entraria em colapso. Então, enviou alguns de seus súditos que garantiam serem capazes de realizar a missão, ele os proveu com muitos recursos e dinheiro e esperou durante anos.

Mas, esse súditos também não foram, como no caso do terceiro príncipe, devidamente honestos. Não queriam arriscar suas vidas contra um monstro que provavelmente os mataria e gastaram todo o dinheiro com farras.

Percebendo-se traído, o príncipe ficou furioso, mas o desafio o subiu a cabeça e ele afirmou que se alguém tivesse que matar o dragão, teria que ser ele mesmo, então, por fim, partiu na jornada.

Com seu navio e seu capitão, navegou por locais onde havia relatos de um terrível dragão que destruía as embarcações, desafiando o medo de sua tripulação e do próprio capitão mas proseguindo corajosamente.

Um dia uma terrível tempestade atingiu seu navio, destruindo-o e lançando-os como náufragos durante anos pelas ilhas dos mares. Muitos marinheiros afirmaram ter visto o dragão na tempestade, mas quer fosse verdade ou não, durante esse período, o príncipe reconsiderou seus sentimentos por Kaguya Hime, considerando um ultraje que ela o incumbisse de um missão tão improvável ou tão arriscada, que poderia por fim a sua vida e a segurança e ordem no seu país. Achou que a princesa não era então digna de sua admiração e passou a desgostá-la.

O quinto príncipe, ao contrário dos outros, desde o princípio assumiu plenamente o desafio, percorrendo o mundo em busca do pássaro que possuía uma concha na barriga. Muitas aves morreram nas suas tentativas de encontrar o objeto em seu ventre. Ele desenvolveu vários métodos de localizar, capturar e examinar os pássaros, mas após muitos anos concluiu que a missão era impossível.

O príncipe então, admitiu seu fracasso e, em carta, enviou suas desculpas a princesa, declarando-se incapaz de cumprir seu desafio e lamentando. A princesa lhe foi, então, compreensiva e aceitou suas desculpas.

Com a falha de todos os cinco príncipes, Kaguya Hime, o Taketori e sua esposa viveram tranquilos e felizes por uns tempos, como uma família unida. Mas, as histórias sobre os feitos e falhas dos príncipes percorreram todo o Japão e chegaram ao ouvidos do imperador.

Este ficou então curioso e fascinado pelos relatos sobre a beleza da princesa, e se interessou em conhecê-la, enviando até seu pai um convite para que comparecessem a sede imperial.

Mas, mesmo o convite do imperador foi rejeitado pela jovem, o que o irritou e o fez enviar então uma ordem convocatória. Temendo o imperador, o cortador de bambu aconselhou à filha que obedecesse, mas ela surpreendeu a todos mais uma vez declarando que não obedeceria a ordem e que nem poderia, pois se se afastasse de casa, iria dissolver-se em fumaça e desaparecer.

Dessa vez o imperador não se enfureceu devido a justificativa, mas ficou ainda mais interessado, passaram então a trocar correspondências frequentemente e acabaram se tornando amigos, mas sempre adiando um oportunidade de se conhecer, enviando um ao outro poemas e contos. E assim, a família do Taketori permaneceu em paz por muitos anos a mais.

Mas, chegou uma época em que Kaguya Hime começou a entrar em depressão, seus pais constantemente a encontravam chorando sob a lua cheia. No princípio, hesitaram em perguntar, mas como a situação se agravava cada vez mais, insistiram numa explicação.

Chorando, ela lhes contou então que não era deste mundo, era na verdade da Lua. Fora enviada para ser a filha do casal por um motivo que ela ainda não conhecia, mas não seria para sempre. No 15º dia do 8º mês ela voltaria para a Lua.

Seus pais ficaram boquiabertos por um tempo, depois passaram a conversar. O Taketori relembrou as incríveis circunstâncias em que ele a achara, o modo como cresceu rápido, sua extraordinária beleza, mas daí a acreditar que ela era da Lua? Ele achava que era demasiado fantástico. Mas, ela reiterou que quer eles acreditassem ou não, naquela dita noite ela iria embora para sempre.

Ela escreveu ao imperador para se despedir, mas esse não respondeu, decidiu se deslocar até ela pessoalmente para presenciar e quem sabe impedir sua partida. Mobilizou milhares de soldados e partiu com quase toda a sua corte.

O dia chegou e Kaguya Hime, já mais conformada com seu destino, dizia ao pai que nada poderia impedir sua partida, mesmo o imperador e seu exército não seriam capazes de deter as divindades que viriam buscá-la. Quando a Lua nasceu, as tropas do imperador simultaneamente chegaram. Ele ordenou que seu soldados cercassem a casa e apontassem suas flechas para o ar.

Então, surgiram de uma nuvem no céu diversas moças voando, tão belas quanto Kaguya Hime, e todos ficaram paralisados, incapazes de fazer qualquer coisa. Vozes divinas anunciaram que o momento chegara, que era hora de partir.

Agradeceram o Taketori e sua esposa por terem cuidado bem da princesa que elas lhe enviaram, e que foram mesmo elas também que puseram todo o ouro que os enriqueceu, como forma de garantir que eles tivessem uma vida digna e pudessem criá-la. Como recompensa final, permitiram que ela lhes desse um último presente, uma jarro onde continha uma poção que poderia dar vida eterna a quem a bebesse.

Mas, com toda a tristeza que os pais adotivos da moça sentiam, achavam que viver para sempre sem ela seria um castigo ainda maior do que estavam sofrendo agora, pois perdiam o gosto pela vida. A princesa tentou consolá-los, dizendo que sempre que olhassem para a Lua, poderiam vê-la.

Kaguya Hime ascendeu aos céus junto com suas semelhantes e sumiu em direção a Lua.

O Taketori e sua esposa deram ao imperador a poção da imortalidade, mas este também se recusou a bebê-la, movido pelo mesmo sentimento dos pais da princesa. Ordenou que fosse feito, então, um sacrifício em homenagem a ela, e seus súditos despejaram no monte Fuji a poção, que aos poucos se desfaria em fumaça, rumo aos céus, de onde viera.

E lá, na boca da vulcão Fujisan, a poção da vida eterna evapora até hoje.”

Laís

2 Comments on Kaguya Hime: A Princesa da Lua

  1. Nivea
    02/08/2014 at 21:41 (3 anos ago)

    É disso que eu gosto das mitologias e contos antigos, eles contam como as coisas de hoje são o que são e por que.
    Acho linda a poesia que isso traz às coisas, quero as explicações científicas, mas essas explicações místicas, são muito mais bonitas…

  2. Sra Michaelis
    22/01/2016 at 19:36 (2 anos ago)

    A primeira vez que ouvi esta historia foi quando eu era pequena e minha irmã contou pra mim, eu gostava dela, mas nunca foi uma das minhas preferidas eu gostava mais de uma história que minha irmã contou pra mim nessa mesma época que era a de um homem que que vira um coelho que era bem engraçadinha. Sabe, como tenho decendência japonesa conheço vários contos bem legais que você poderia postar qui e seria bem fácil de encontrar pela internet procurando pelo livro “Mukashi” tem histórias bem legais e bem populares lá no japão, como “O Mistério do lago”, “A Raposa e o Camponês” e também “Os três irmãos e as peras do mato” que é um dos mais legais que conheço e acho que também fala alguma coisa sobre bambus rsrss
    Enfim, obrigada pelo ótimo trabalho.
    Beijos de sorvete!