Rapunzel, dos Grimm

Esse é um dos textos selecionados no livro Contos dos Irmãos Grimm, com ilustrações do maravilhoso Arthut Rackham e editado, selecionado e prefaciado pela Dra. Clarissa Pinkola Estés. Chama-se Rapunzel e duvido muito que exista alguém que nunca tenha ouvido falar nele. Reescrevi aqui o conto que está no meu livro, pois não consegui achar nenhuma versão fiel o bastante na internet. Espero que gostem tanto quanto eu!

“Era uma vez um homem e uma mulher que durante muito tempo desejaram em vão ter um filho, mas enfim tiveram razões para acreditar que os céus satisfariam o seu desejo. Havia uma janelinha nos fundos de sua casa que se abria para um belo jardim, coberto de lindas flores e arbustos. Era, porém, cercado por um muro alto e ninguém se atrevia a entrar ali porque pertencia a uma poderosa bruxa a quem todos temiam.

Um dia a mulher estava parada à janela contemplando o jardim e viu um canteiro plantado com lindos rapôncios, uma planta de cujas raízes se fazem saladas. Pareciam tão frescos e verdes que ela teve desejo de comê-los. Seu desejo foi aumentando de dia para dia, e como sabia que nunca poderia satisfazê-lo, a mulher começou a ficar pálida e infeliz e a perder as forças.

Então o marido de assustou e perguntou:

– Que a aflige, minha querida mulher?

– Ai de mim! – respondeu ela. – Se eu não puder comer um rapôncio do jardim dos fundos de nossa casa, morrerei.

O marido, que a amava, pensou: “Antes que sua mulher morra, você precisa apanhar para ela o rapôncio, custe o que custar.” Então no crepúsculo ele pulou o muro para chegar ao jardim da bruxa, apanhou depressa um punhado de rapôncios e levou-os para a mulher. Ela logo temperou as raízes e as comeu ansiosamente. Estavam tão gostosas que no dia seguinte o seu desejo triplicara. Não conseguiria sossegar a não ser que o marido fosse buscar mais. Então no crepúsculo ele foi mais uma vez ao jardim, mas quando pulou o muro ficou aterrorizado porque se deparou com a bruxa.

– Como é que você se atreve a entrar no meu jardim como um ladrão para roubar rapôncios? – disse lançando ao homem olhares irados. – Pior para você!

– Ai de mim! – respondeu ele. – Tenha piedade. Só estou aqui por precisão. Minha mulher vê os seus rapôncios da janela e sente tanto desejo de comê-los que morreria se não pudesse lhe levar alguns.

A ira da bruxa de aplacou e ela disse:

– Se é como você diz, vou deixá-lo levar os rapôncios que quiser, com uma condição. Terá de me entregar a criança que sua mulher vai dar à luz. Cuidarei dela como se fosse sua mãe e todos ficarão satisfeitos. – Amedrontado, o homem concordou com tudo e, quando o bebê nasceu, a bruxa apareceu, lhe deu o nome de Rapunzel (significando plantação de rapôncios) e levou a criança.

Rapunzel era a criança mais bonita que o sol iluminava. Quando fez doze anos, a bruxa a prendeu em uma torre que havia na floresta. Não tinha escadas nem portas, somente uma janelinha bem no alto da parede. Quando a bruxa queria entrar na torre, parava embaixo e gritava:

– Rapunzel, Rapunzel,  solte suas tranças.

Ilustração de A. H. Watson

Rapunzel tinha uma cabeleira esplêndida, fina como fios de ouro. Assim que ouvia a voz da bruxa, a menina soltava suas tranças e as prendia em um gancho junto à janela. Elas caíam vinte metros abaixo e a bruxa subia.

Aconteceu que uns dois anos depois o filho do rei atravessava a floresta e passou por perto da torre. Ouviu um canto tão bonito vindo dali que parou para escutar. Era Rapunzel, que em sua solidão cantava em voz alta para passar o tempo. O filho do rei quis ir ao seu encontro e procurou uma porta, mas não havia nenhuma na torre.

Ele foi embora, mas o canto comovera seu coração tão profundamente que ele voltou à floresta todos os dias para ouvi-lo. Uma vez, quando estava escondido atrás de uma árvore, viu uma bruxa chegar à torre e gritar:

– Rapunzel, Rapunzel, solte suas tranças.

Então Rapunzel baixou as tranças e a bruxa usou-as para subir à torre.

“Se essa é a escada pela qual sobre”, pensou ele, “vou tentar minha sorte.” E no dia seguinte, quando começou a anoitecer ele foi à torre e gritou:

– Rapunzel, Rapunzel, solte suas tranças.

As tranças desceram em seguida e o filho do rei subiu até o alto da torre.

A princípio Rapunzel ficou aterrorizada, porque nunca pusera os olhos em um homem antes, mas o filho do rei lhe falou gentilmente e lhe contou que seu coração se enternecera tanto com seu canto que ele não teve mais sossego e se sentiu obrigado a vê-la. Então Rapunzel perdeu o medo e, quando ele perguntou se o aceitava como marido, ela pensou, vendo que ele era jovem e bonito: “Ele me amará melhor que a minha velha mãe Gotel.”

Respondeu então que sim e deu a mão ao rapaz.

– Ficarei contente de ir com você, mas não sei como vou descer desta torre. Toda vez que você vier, pode me trazer uma meada de seda? Trançarei com ela uma corda e, quando estiver bastante comprida descerei, e você poderá me levar em seu cavalo – disse ela.

Combinou que o príncipe deveria ir vê-la sempre ao anoitecer porque a velha bruxa a visitava durante o dia.ahwatson_rapunzel2

A bruxa não descobriu nada até que Rapunzel um dia lhe disse de repente:

– Diga, mãe Gotel, como é que a senhora pode ser muito mais pesada para puxar do que o jovem príncipe que logo estará aqui?

– Ah, sua filha malvada, que está me dizendo? Pensei que a tivesse separado de todo o mundo, mas você me enganou. – Em sua raiva agarrou as belas tranças de Rapunzel, enrolou-as duas vezes na mão esquerda, pegou uma tesoura e cortou as tranças que caíram ao chão. A bruxa foi tão impiedosa que levou a pobre Rapunzel para um lugar deserto, onde a forçou a viver na maior tristeza e miséria.

Na noite do dia em que expulsou Rapunzel, a bruxa amarrou as tranças que cortara no gancho junto à janela e, quando o príncipe veio e gritou: “Rapunzel, Rapunzel, solte suas tranças.”, ela as baixou. O príncipe subiu, mas em lugar de sua amada Rapunzel encontrou a bruxa, que o encarou com os olhos raivosos e cheios de maldade.

– Ah! – caçoou ela. – Você veio buscar a sua namorada, mas a bela ave não está mais no ninho. Não pode mais cantar porque o gato agarrou-a e arrancará seus olhos também. Rapunzel está perdida para você, nunca mais vai voltar a vê-la.

O príncipe ficou transtornado de pesar e em seu desespero pulou pela janela. Não morreu, mas seus olhos foram arrancados pelos espinhos do arbusto em que caiu. Ele vagou às cegas pela floresta, se alimentando apenas de raízes e frutinhas. Só fazia chorar e lamentar a perda de sua querida esposa Rapunzel. Assim ele perambulou por muitos anos, até finalmente chegar ao lugar deserto em que Rapunzel estava vivendo em grande penúria com os gêmeos a que tinha dado à luz, um menino e uma menina.

O príncipe ouviu uma voz que lhe pareceu muito conhecida e caminhou em sua direção. Rapunzel reconheceu-o imediatamente e desatou a chorar em seu ombro. Duas de suas lágrimas caíram nos olhos dele fazendo-os clarear imediatamente, e o príncipe voltou a ver como antes. Levou-a então para o seu reino onde foi recebido com alegria, e ele e Rapunzel viveram juntos uma vida longa e feliz.”

Ilustrações de A.H. Watson

Alícia

0 comment on Rapunzel, dos Grimm

  1. gabi
    01/02/2013 at 19:05 (5 anos ago)

    Lindo! Eu não conhecia esse desfecho e fiquei realmente feliz porque tinha ~certeza~ de que ia terminar horrendo. Isso porque sempre me assusto com os finais tão tristes e solitários esperando que o autor mude de ideia; Desacreditei do happy ending e me surpreendi com Rapunzel.
    Aliás. Rapôncios. Adorei conhecê-los! <3

    • Alícia Cohim
      01/02/2013 at 19:19 (5 anos ago)

      Hahahaha quando li também fiquei esperando um desfecho bem horrendo, mas me surpreendi!

  2. Nivea
    04/08/2014 at 15:09 (3 anos ago)

    hum, eu pesquisei um pouco sobre Rapunzel e descobri que a autora Charlotte-Rose de Caumont de La Force escreveu um conto com história semelhante chamado Persinette, achei apenas resumos, indicando as diferenças entre as versões da história de Persinette… mas nunca vi uma completa, será que vocês podiam me ajudar com esse conto?

    • Alícia Cohim
      04/08/2014 at 17:19 (3 anos ago)

      Claro que sim Nívea! Faremos o possível! 🙂