Sol, Lua e Talia, de Giambattista Basile: Parte I

Sun, Moon and Talia, de Chris Beatrice

Em 1634, foi lançado Il Pentamerone: Lo cunto de li cunti, obra que reunia grande parte das histórias do escritor italiano Giambattista Basile (1575 – 1632). Sol, Lua, e Talia (Sole, Luna, e Talia) é um de seus contos de fada que integram esse livro. Esse conto, considerado  horripilante por muitas pessoas, fala de uma princesa que, ao nascer, foi predestinada a dormir por cem anos. Em 1697, tempos depois do lançamento das histórias de Basile, Charles Perrault recontou essa história no livro Contos de Mamãe Gansa, dando à ela o nome de The Sleeping Beauty in the Wood. Apesar de tudo, a versão mais conhecida, hoje em dia, é a dos Irmãos Grimm, datada do século XIX e intitulada Briar Rose, onde a princesa amaldiçoada acorda com o beijo de um príncipe encantado (awn).

Apesar de muito relutar em dividir esse conto em duas partes, isto foi necessário, pois ele é bem longo e poderia ficar cansativo demais.  Essa maneiríssima versão do Basile foi traduzida por Waldemar Ferreira Netto. Waldemar, quem quer que tu sejas, salvaste minha vida. Muito obrigada!

“Era uma vez um grande senhor que quando nasceu sua linda filha, deu-lhe o nome de Talia e chamou todos os sábios e os astrólogos do reino para que predissessem seu futuro. Eles consultaram as estrelas e se aconselharam durante algum tempo, e depois disseram:

– Talia será bela e cheia de graça, mas arriscará a morrer por uma farpa de linho.

Esperando evitar a desgraça, o senhor decretou que ninguém em sua casa tivesse ou trouxesse mais linho, nem mesmo cânhamo, nem qualquer coisa semelhante. Mas, quando Talia já era uma mocinha, um dia, em que estava na janela, viu passar uma mulher velha que fiava; e ela, que nunca tinha visto uma roca nem um fuso, interessou-se muitíssimo como girava. Teve um desejo tão grande de ver o instrumento de perto que convidou a senhora a deixar a lei de lado e pegou na mão a roca. Tentou estirar o fio, mas uma farpa de linho entrou sob sua unha, e naquele mesmo instante, ela caiu por terra, morta. Quando a velha viu o que tinha acontecido, ela desceu, tomou as escadas e foi de volta para a rua.

O pobre pai, diante dessa desgraça, chorou um pote de lágrimas e se sentiu inundado de tristeza. Deixou a belíssima Talia em seu palácio de campo, sentada num trono de veludo, sobre uma almofada de broquel, fechou todas as portas e, então, abandonou para sempre aquele palácio, esperando esquecer a desgraça e superar a terrível dor que isso lhe causara.

Depois de muito tempo, passou um rei que estava caçando, e o seu falcão fugiu, que voou para uma janela aberta do palácio e não voltava mais ao seu chamado. Então, o rei mandou baterem à porta do palácio, acreditando que lá habitasse alguém. Mas ninguém respondia. Assim, mandou colocar uma escada de vindimador e quis ir lá para ver o que havia naquele palácio.

Andou por todos os lados e ficou impressionado porque não tinha alma viva. Finalmente, abriu a porta do quarto onde estava Talia sob encantamento e, pensando que ela estivesse adormecida, chamou-a, mas ela não respondia. Então, tentou reanimar a belíssima jovem pensando que tivesse passado mal, mas foi inútil. Enfim, inflamado por sua beleza, tomou-a pelos braços e deitou-a em seu leito, beijou-a e lhe deu todo seu amor. Depois, deixando-a lá, estendida, voltou ao seu palácio, e por algum tempo não pensou mais no que havia acontecido.

Depois de nove meses, Talia pariu duas crianças, um menino e uma menina, que resplandeciam de beleza como ouro e diamante, que foram cuidados por duas fadas que apareceram no palácio e que os colocaram junto ao seio de sua mãe. Um dia, os gêmeos, querendo mamar, e sem encontrar o bico do seio de sua mãe, puseram-se na boca o dedo de Talia, e tanto chuparam que fizeram sair a farpa de linho. Então, pareceu à Talia que despertava de seu longuíssimo sono, depois viu junto de si aquelas duas belíssimas crianças e, muito contente, deu-lhes de seu leite, e tinha-lhes carinho como a sua própria vida.

Talia não entendia o que havia acontecido, e se encontrava muito só naquele palácio com seus gêmeos, enquanto lhes serviam de comida, sem que pudesse ver quem lhes dava. Quando então, o rei se lembrou daquela bela adormecida. Voltou a caça e, chegando na frente do palácio, entrou para vê-la, e assim, a encontrou acordada com aquelas duas crianças muito belas e alegres, e ficou feliz como nunca havia ficado antes.

Contou à Talia como era e como tudo aconteceu. Assim se conheceram, se quiseram muito bem, e passaram juntos alguns dias. Depois a deixou só, prometendo-lhe que voltaria logo para tê-la consigo, e foi para o seu reino, onde se lembrava durante todo o tempo de Talia e de seus filhos, tanto que, enquanto comia tinha em seus lábios Talia, Sol e Lua, que era assim que tinha chamado as crianças e não dormia nem acordava sem pronunciar o nome deles.”

Continua num próximo post. Hasta!

Laís

0 comment on Sol, Lua e Talia, de Giambattista Basile: Parte I

  1. Waldemar Ferreira Netto
    22/01/2013 at 18:06 (5 anos ago)

    De nada. Obrigado por ter lido. Um grande abraço. Waldemar

  2. Rodolfo Venicius
    14/03/2017 at 12:43 (5 meses ago)

    Onde posso conseguir os contos de Giambatiste Basile, o livro ou mesmo os contos separados, em PDF e em português?

    • Laís Sperandei
      14/03/2017 at 13:01 (5 meses ago)

      Bah, em português acho mais difícil. Sei da existência de alguns dos livros originais escaneados pela internet, mas em pt não conheço nenhum lugar que tenha traduzido na íntegra e disponibilizado. Tu pode procurar na internet os contos que estão no livro, e procurar cada um individualmente. É o que eu aconselho a fazer. Sinto muito não poder te ajudar mais nessa empreitada. Boa sorte na procura!

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  1. […] do conto da Talia e dos seus babies, por Giambattista Basile. A primeira parte pode ser lida aqui, junto com as demais informações sobre o conto. Caso não tenha lido a primeira parte ainda, vai […]

  2. […] mais um conto do Giambattista Basile (lembram da sua Bela Adormecida?). Bom, o conto Prado Verde é, de certa forma, um pouco parecido com a história que conhecemos […]